BuЯЯocracia:
– a deficiência
burocrata,
que deixa qualquer
democracia
uma coisa ainda mais
demoníaca.

Os buЯЯocratas:
– antas animalescas,
assassinos plutocratas,
que chicoteiam e puxam,
pelo voto do cabresto,
faraônicos elefantes brancos,
paquidérmicos,
sem ir a lugar algum,
parados no meio do deserto,
que nem poste colocado
no meio da rua,
inertes, inóspitos,
que não deixa
ninguém,
nada,
nenhum,
nunca,
ali, lá
passar.

Não saber,
não querer,
não entender,
não quero nem saber
você sabe com quem
esta falando?

rir da cara do povo
como se não houvesse
outro dia.

E hoje,
era até às 4,
até às 5,
hoje não abre,
só amanhã,
se vier alguém,
das 9 às 9:30,
das 10 ao meio dia,
da uma até às duas,
emendou o feriado,
enforcou a semana:
– e quem morreu
sem ar foi meu tio.

BuЯЯocracia,
buЯЯocraticos,
eficácia ineficiente
ineficiência deficiente
deficiência demente
demência decadente
decadência ineficácia
ciência da paciência.
Haja bolsa
haja sacola
haja pochete
haja necessaire
haja saco
haja sapo pra pagar.

BuЯЯocracia burocrática
bota o dedo nos olhos
puxa a orelha
pega no pé
agarra no cabelo
morde com os dentes
arranca com as unhas
seus tostões,
seu tempo,
sua vida,
seu lazer,
sua família,
seu você;
Tudo devidamente fiscalizado
pra não sobrar nada
e faltar tudo.

Não atende,
não responde,
retorna quando não pode,
quando dá,
sabe-se lá quando…
E vai ligar todo dia,
mas não liga pra você;
Impostos goela abaixo,
só cobranças,
venenosas,
jararacas.
Toma e tira,
canetas e carimbos,
escárnios e propinas,
por todos os lados,
em todos os cantos,
do papel branco
timbrado e retalhado
por uma porca assinatura.

Perde tempo e acha graça,
desconversa,
ri na covardia,
acha que eu acredito,
cara de pau
palhaço
sacana
pilantra
mentiroso
corrupto
bandido
babaca
idiota
otário
tanso
tolo,
faz de boba
a população,
o povo,
a porra toda.

Tananananana
Escolha a opção
tananananana
Aperte a opção
tananananana
Deseje a opção
tananananana
É essa sua opção?
tananananana
Tem certeza?
tananananana
Aperte a tecla:
7 para o sétimo ciclo,
6 para o sexto,
5 para o quinto,
ou aguarde um de nossos ignorantes
tananananana
Só um momento…
tananananana
… … … … …
tananananana
A Morte lhe deseja a melhor ligação com lugar nenhum
tananananana
Nossos planos de espera são os melhores do mercado
tananananana
Aguarde que um de nossos ignorantes já vai lhe ignorar
tananananana
Espere que hoje mesmo você vai morrer esperando
tananananana
Mais um pouco
tananananana
Mais uma horinha
tananananana
Mais um pouquinho
tananananana
Agora
tananananana
Mas antes…
tananananana
Só mais um minuto que já vamos lhe matar
tananan…
Morri.

BuЯЯocracia:
– vozes cruzadas,
informações cruzadas,
linhas cruzada,
pernas cruzadas,
braços e mãos,
dedos,
cara,
palavras
cruzadas;
Desordem e retrocesso.

Senta,
tenta,
não levanta,
não senta,
não tenta,
senta, levanta,
fica de pé,
tenta ficar vivo,
morto vivo na espera,
cai, desaba,
chora,
até não aguentar mais;
Promessas e mais promessas,
como a de um carente presente
de Natal que nunca chegou.

E promessas e mais promessas:
– Só mais quinze minutos,
só mais meia hora,
daqui um,
três
meses,
cinco,
dez semanas,
só pra 5 de setembro,
10 de janeiro,
daqui a 4 meses, senhor,
ano que vem, senhor
2020, senhor.

E foi o último
de 800 vagas,
mas o primeiro
de 2000 candidatos:
gari, motorista, assistente,
segunda a sábado, 8 às 5,
mas não conseguiu:
– a prova foi fraudada.

E pega a senha pra
fila pra pegar
a espera
pela fila de espera
de senha pra esperar
pra cirurgia já adiada
pra bota o filho na creche
pra ter o remédio
pra ganhar merenda
pra atender o criança
pra receber o documento:
senha C191, por favor,
senha C191, final do corredor
senha F18
senha C200
senha C33
quem é o G5?
o 14?
já voltou?
não voltou?
já passou?
ai meu numero, moço…
ai moço…
que demora…
F22
I111
90
10
3
senhora…
senhora!
sua vez!
anda!
por favor!
guichê ao final do corredor
primeiro guichê
caixa livre
caixa fechado
próximo
seguinte
anda
não veio hoje
não tem ninguém
só amanha
depois
por favor
aguarde atrás da linha,
por favor,
pra sua segurança,
vou chamar o segurança:
– Fechou,
não entra mais ninguém.

E assim vai (vai?)…
E assim segue (segue?)…
atraso após atraso,
demora após demora,
um pais,
um governo,
uma nação,
açoitada por buЯЯos,
puxada por cidadãos.

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Batendo com a cabeça num pingo d’água

Minhas mãos já não escrevem, eu já não sou o que é. O que é, o que é? Minhas mãos já não trabalham; foi assim a vida toda, agora não será diferente. Chego a 1/3 de vida e minhas perspectivas são, em ordem numérica:

3. Se nada der certo, vender churrasquinho de gato
2. Se tudo der certo, não esquecer de agradecer minha mãe
1. Se tudo der nada, não se preocupar: já era o esperado
0. Se nada der tudo, puxar os cabelos: como isso podia acontecer?

Tento com isso te mostrar alguma coisa nova, mas você vai olhar pro lado e ver que uma sacola voando ou um fio de cabelo em cima da mesa chamam mais a atenção; eu te entendo, também sou assim com as suas coisas. Sabe, aquelas ali que você nem dá mais bola, fez por fazer como o coco depois de acordar.

Amanhã será 3 de agosto. Você vai fazer coco depois de acordar ou vai esperar até meio dia, pra fazer depois do café?

Então até lá me diga: o nome de 5 pessoas que não influenciaram você (pode ser 6, se quiser):

1.
2.
3.
4.
5.
(6.)

Agora imagine o quão chocada elas ficarão, se ainda vivas, em saber que você não gosta delas. Como vai ser nas entrevistas? O bafáfá escandaloso de suas declarações? Você acha mesmo que elas vão te convidar prum jantar dançante em suas respectivas casas, onde poderá confraternizar com a alta classe artística? Acho melhor você sorrir e dizer que estava brincando, que considera cada uma delas como um velho amigo, um amigo da família, muito querido e estimado.

Ou não, você pode dizer a verdade, que elas são umas merdas e que cuspirá no túmulo de cada um; assim atrairá mais atenção pra isso, o que poderá ser bom, dependendo do ponto de vista do cu – uma fala destacada como o recorte manipulado – (o que você queria dizer é que elas são umas merdas, que se caga e se vai, mas aduba a vida e traz inspiração à tona, que não são tão ruins assim, apesar de serem umas merdas, falsas como couro sintético).

Na verdade, como poeta-bom-fingidor, tudo foi um golpe publicitário: o que eu queria mesmo, segundo os professores e analistas de sistema, é dizer que todos me influenciaram, que não há alguém que não me influenciou, que tudo é influência, sampler, mixer, remix, plágio, que é como o aspirador de pó que suga tudo, até seu pau, que tudo o resto vai pra dentro, independente do que seja, cabelo, dedo, grelo, mas que quando vê dá uma merda fodida e você vai ter que abrir a porra toda pra libera o que seja, um escorpião, uma abelha ou uma lacraia da porra. Sabe-se lá vai saber.

É bem assim, se você conseguir entender.

Se não, pense em 5 – pode ser 6 – dedos das mãos ou dos pés que você acha mais bonitos:

(6.)
5.
4.
3.
2.
1.

Mas e se eu for o Lula ou um Yakuza, posso também fazer a pesquisa? Pode, é só imaginar qualquer coisa no lugar: seja uma cenoura em bastonete até um Bic Mini.

Meio dia e meia e eu penso: onde foi que perdi…

Fácil é bater com a cabeça num pingo d’água; difícil é pedir desculpas.

Agora peraí. Apaga tudo, apaga tudo. Com isso você não consegue nem que te acenem na rua, sendo que é pra pessoa que vem atrás que de verdade tão chamando.

Numa manhã de 2001, eu não sabia o que queria da vida. Talvez ter responsabilidades, aparecer na TV e apertar a mão de Jean Claude Van Damme.

Numa manhã de 2017, eu sabia o que não queria da vida. Talvez ter responsabilidades, chegar na hora certa no trabalho e poder apertar a mão, ter uma conversa rápida, com um desconhecido na rua, só para poder dizer no trabalho que encontrou um primo seu na rua e que este é o motivo do seu atraso.

E pro atraso de vida, quem que você usa como desculpa?

Ó, quem que tá te acenando ali?

Pergunta: o que é poesia para você, o que é escrever?

Resposta: Poesia pra mim é só um meio que escolhi para parecer interessante e disfarçar meu interesse em trabalhar duro, pras pessoas na rua acharem que sou inteligente e culto, mas na verdade eu não tenho a mínima noção da porra que eu tô fazendo. Acordo e penso: que lindo dia para escrever. Mas volto para a cama, puxo as cobertas e digo: vai continuar tudo ali, outra hora eu faço. Quem presta atenção em palavras hoje em dia? Não se presta atenção nem ao atravessar a rua, escovar os dentes, nos aniversários do dia, nem em que estação do ano estamos – não se sabe nem o nome da pessoa ao lado. É Rogério né? Não, não, é Abílio. Poxa… Acha mesmo que vão prestar atenção nessa porra; o último lanche do McDonalds é mais gostoso.

Escrevo uma palavra na ordem seguinte da outra só para ter nexo, como uma linguagem compreensível, mas o que queria mesmo é rabiscar um monte de bobagem e coisa sem nexo só para parecer genial, só para mostrar que sou maluco da pedra sendo que minha brincadeira favorita é jogar pedra no teto de vidro dos outros; (Talvez esteja conseguindo, enganando a mim mesmo e a vocês com essas ideias de sucessivas incompreensões; minha mãe vai rir da minha cara: Gabriel, meu filho…); escrevo meia dúzia de coisas sem sentido, cuspidas como esgoto rumo ao mar e me acho a última bolacha do pacote, achando que tô arrasando, abalando Bangu, pensando que vou aparecer nos livros de história como a mais importante revelação desde a verdade sobre o suicídio dos amantes, a identidade do soldado anônimo; – vai achando, vai esperando, já vi isso em outro lugar e o resultado foi: 06, 07, 10, 13, 14, 17, 19 e 23 – e não foi dessa vez que eu fiz menos pontos; (vê como o uso do ponta e vírgula deixa tudo mais chique, é uns macetes que se aprende ao longo do tempo, como que nem usar ênclise, próclise e prótese peniana).

Querem saber a mentira? Daqui a 5 anos vou estar procurando emprego de comentarista político, emprego de instalador de TV a cabo, emprego de youtuber, porque ó, escrever… Escrever até que sabe, hoje todo mundo se põe a escrever, ter um livro é ajudar no futuro das crianças, mas ser poeta, olha, já não gosta que te chamem de poeta porque parece antiquado; já acha que te olham atravessado quando te chamam de poeta; então olha; A poesia morreu no último dia de fevereiro de 88; hoje o que tem é só um monte de palavra e boca aberta falando por aí querendo ser o salvador da nova classe; e eu sou candidato, desde já estou no pleito, me escolha votando no número 7 e apertando um verde após para confirmar.

Agora, senhoras e senhores, meninos e meninas, garotos e garotas, XX e XY (me desculpem se esqueci de alguém, é que cada vez são mais caixinhas, gavetinhas, tapperwares, que o depósito tá cheio): me agradeçam – eu tenho que ir embora. De nada, vocês são uma adorável plateia.

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Cada vez mais excessos,
Exposições;
Sua vida nem é mais um livro:
É uma queda livre.
Cada vez mais.

Medalhas e moedas
Não vão embelezar seu túmulo,
Mas sim mostrar sua real face:
Velhice e mesquinharia antiquada
Rompante com o brilho do sol,
No reflexo do seu sorriso frouxo e morto.

Você não vai gostar de nada disso
Quando algo novo tomar seu lugar;
Um poeta mais novo, uma modelo mais jovem.
Um novo sabor para uma língua gasta.
As emoções que você queria,
As noites mal dormidas,
As garrafas caídas, as bocas beijadas,
Provocações e tapas na cara
Que você nunca levou,
Mas goza, ri, com a dor que não teve.
Um carnaval de fantasias que nunca saíram
De dentro da tua cabeça.
Eu já digo a mim mesmo para não se preocupar:
Você vai se afogar em sua baba venenosa
Quando ficar sem voz berrando por atenção,
Cada vez mais se mostrando, se exibindo,
Propaganda retórica e artificial.

E não vai doer nada.

E olhando nos fundos de meus olhos
De peixes mortos pela inanição de um
Aquário,
Pergunto:
É isso mesmo que você quer?
Foi tudo isso que você quis?
Continua querendo mais disso?

No mais,
É ir para a rua e se esconder do público,
Beber uma cerveja na sombra
Para que ninguém tire fotos.
É não dizer seu nome para que não precisem repetir
Nunca mais, nunca mais, nunca mais,
Pois só assim é que se mostra, se ganha,
Se valoriza.
E onde há espaço para tudo isso?
Numa cabeça atordoada por imagens falhas,
No cartão de 32GB de um celular obsoleto?
Na sua inconsciência tomada de falta de sentido
e saturada de estímulos?

E de tudo, sou tentado a aceitar
Isso como uma verdade, a única:
Quem é visto, é lembrado – é Pop.
Mesmo que não queria sair de casa
Num domingo de sol para ver
Cachorros e crianças:
Tão bonito como
O enterro de um inocente.

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O infinito do oroboro na faixa de Mobius

Um show de Tom Jobim no Japão nos anos 80.
Uma peça de teatro em Berlim antes da queda do muro de Berlim.
A Avenida Paulista em 94.
Nova York vai ficar velha?
E Nova Brasília, Nova Deli?
Cannes nos anos 60.
Barcelona em 55.
Uma vila de pescadores nos Açores em 14.
Uma viela de Veneza em 24.
Uma viola nas mãos de Atahualpa Yupanqui.
Uma violeta para minha mãe.
Um bom dia para meu pai.
O LED é o novo neon.
O celular é o novo cigarro.
O café é a nova água.
O antigo é o novo novo
Que já é antigo para daqui a pouco
Ser novo de novo.
“Eia, imaginação divina!”
E numa folha de papel dobrada já passaram do lado negro da Lua, dando tchau.
E num pixel de 1 por 1 cabe 10.000 imagens e 1.000.000 de verbetes.
E num cartão de memória cabe quantos quebra-cabeças de 1000 peças?
E quantos neologismos cabem na ponta da língua morta?
O Chile em 68.
A Argentina em 78.
A Colômbia em 88.
A Venezuela em 98.
A Bolívia em 08.
Hong Kong em 2000.
Bangkok em 2002.
Seul em 2004.
Cingapura em 2006.
Dubai em 2008.
A Abissínia, a Bretanha, a Cisplatina, a República do Zaire, a Kalakuta, a Prússia, a Pérsia, a Gália, a Ilha de Formosa, o Sião, a Hollandia Nova, a Iugoslávia, o Sacro Império Romano-Germânico, a Babilônia, a Grã-Colômbia, Zanzibar, Rapa Nui, Aztlán, a Bessárabia, o Estado do Maranhão.
Fique atento: A hora do juízo final foi marcada pras 14 horas, horário local.
O Apple Rooftop Concert dos Beatles.
Michael Jackson fazendo Moonwalk.
Romário contra o Uruguai.
Ramones em Balneário Camboriu.
Os soldados de Hitler e Napoleão congelando.
Neandertais mordidos por Homo Sapiens.
Giordano Bruno comendo uma pasta alla carbonara.
Miguel de Unamuno jogando Uno com Rubén Dário.
Kumbh Mela, Hajj, Corpus Christi e Yom Kippur.
Johnny B. Goode premiado com o disco de ouro.
Quando você descobriu o gosto de suco de uva.
A piscina do clube.
Uma coleção.
O Playstation.
Um pé de jenipapo.
Um copo d’água.
Um meme.
Buckminster Fuller brincando de casinha com a filha.
José Bonifácio regando as vitórias-régias no Jardim Botânico.
Nobel e a nitroglicerina numa tarde dum dia qualquer.
Marcelo Mastroianni fumando um cigarro.
Mao-Tse Tung fazendo careta de mau.
Muhammed Ali indo logo ali.
Geni se vingando no desastre de Hinderburg.
Eu com 4 anos de idade
e minha primeira volta de bicicleta.
Recorte em cima de recorte em cima de recorte.
Bricolagem, fanzine ou brincadeira de criança?
Ah, como é bom.
Recorda os recordes olímpicos e mundiais?
A Record transmitiu ou foi a Globo?
Você viu pelo rádio?
Escutou o que os jornais disseram?
Quando riscaram as linhas de Nazca.
Quando derrubaram o Colosso de Rodes.
Quando envenenaram Sócrates.
Quando seus pais se separaram.
Quando guilhotinaram Robbespierre.
Quando o Carnaval chegou.
Quando o monge budista se imolou em protesto a guerra.
Quando o celular tocou terça de tarde.
Quando passou a ambulância ao meio dia.
A música do caminhão do gás, uma guitarra,
uma caixinha de fósforo, um taikô, um alaúde.
E o sampler do bate-estaca de uma construção.
As pedras no meio do caminho.
As cercas de arame farpado.
As folhas na calçada.
As poeiras em alto mar.
As tranças do careca.
Pessoa e suas pessoas.
Jesus e seus apóstolos.
Roberto e seu um milhão de amigos.
Aquela menina que senta no fundão e fuma cigarro.
O homem parado olhando o prédio novo.
Seu melhor amigo.
Se lembra dessa daqui?
Não lembro.
Ah sério?
E a piada do papagaio?
O que será, que será?
O que é o que é?
Que que foi, hein?
Não tem aquele gata que você viu numa viagem para Guayaquil?
Deu cria e morreu no parto.
Não tem aquele senhor que te atendeu no brechó em Joanesburgo?
Virou pastor de ovelhas na fazenda do filho.
Não tem aquele menino que apareceu na revista semana passada numa matéria sobre gênios da ciência?
Foi pego colando na prova de biologia.
Não tem aquela lanchonete no meio na estrada no meio do nada indo de Wagga Wagga e Lloyd?
Agora eles têm um ATM 24 horas.
Não tem aquele dia que tu me falou que nunca mais ia ser assim as coisas?
Pois é, não tinha como prever. E foram mesmo.
Não tem? Tem, não tem? Tem sim, quer que embrulhe, é pra levar, vai comer aqui, só não pode ficar ai olhando, tem que ser porque é assim, tá dito, ordens da chefia, sem direção nada vai pra frente, então se encontramos onde as retas se cruzam no infinito?
E foi naquele dia que olharam para o céu e falaram céu, pro sol e falaram sol, pra arma e falaram arma, pra puta e falaram puta, pro violão e falaram violão, pra grama e falaram grama, pra cocaína e falaram cocaína, mas tudo isso em vasco, catalão, andaluz, castelhano, galego, como foi, me conta, você tava lá, quem tava lá? quem tava lá?
Eu nasci em 1986 e quem nasceu a 10.000 atrás, onde tava quando eu nasci?
Será que vai tá vivo quando eu morrer ou já morreu e eu nem soube e tô aqui?
Procurei na lista telefônica.
Busquei no Google.
Chamei o 102.
Perguntei na vendinha.
Consultei o tarô.
Vi nas estrelas.
Parei o moço na beira da estrada.
Ô moço, psiu!
Lá no meio do mar tem uma onda vindo em nossa direção agora mas o bater de asas dum besouro rola bosta mudou a rota e agora ela vai bater em quem tá do outro lado da rua, ufa!.Como se faz um amigo, um inimigo, você quer ser meu amigo, meu inimigo, quer ser alguma coisa minha, nem precisava, nem precisa, guarda teu dinheiro e compra uma coisa pra ti, tá precisando, dá na igreja, ajuda os pobres, rasga, bota fogo, sei lá, sei lá, sei lá!
Abri um mapa mas lá dizia
Cuidado com o buraco.
Abri uma carta mas lá dizia
6 de copas.
Abri uma caixa mas lá dizia
Feche antes que feda.
Abri um livro mas lá dizia
Há muito tempo pra frente.

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Oud

Cada tom que em ti reverbera solto
Se propaga nas asas do falcão
Sob o árabe céu de fogo.

És o moço,
sedento ao deserto seco,
fumando,
soprando longe a dor,
o tempo;

Como a ruína das pedras,
os pés descalços,
a palma das mãos,
o jejum sagrado.

Choras nossos lamentos.

Como a oração da manhã,
o verbo do Profeta,
o império do Islã,
a tristeza do poeta.

Choras nossos lamentos.

Como a grandeza da Caaba,
a pele perfumada,
a esmeralda,
a masbaha.

Choras nossos lamentos.

Ah…
És tão bonito, tão bonito…
Ah…
És tão bonito…
Tão por si, tão por si,
Tão por si…
Ah…
És tão por si…
Tão bonito…
Ah…
És tão por si,
Tão por si…
És tão só
Tão só.

Ah…
És tão só,
És tão só,
Tão só…

Ah…
Como as gotas da chuva,
os passos no silêncio,
a lágrima da viúva,
tua melodia ao vento.

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Os dentes de WB

Sempre que te vejo, WB., percebo teus dentes. Dás tua primeira palavra e logo que abres a boca estou ali reparando, um a um. É uma mania que eu tenho, ficar reparando essas nojeirices nas pessoas, mas fazer o quê. Você também deve ter uma e não diz pra ninguém, imagina, você jamais poderia. Fico te olhando, mexendo só a parte debaixo, já que nunca te vi manifestar a de cima, e percebo teus dentes velhos, contanto um tanto brancos, bem asseados. Teu dentista deve ser bom, tu deve escovar sempre, com escova macia e pasta da cara para eles serem assim, exemplares. Teu dentista, ele deve limpar bem teus dentes, WB., com a espátula, com a pinça, com a escova giratória e tu deve passar fio dental sempre, deve ser bem cuidado, pelo espaço que há entre eles, bem percebíveis de onde quer que se esteja, e que deixas tão limpo e nobre, como teu horário, WB..

WB. com seus dentes, impecáveis para sua postura, sua estatura, seu prestígio, teus dentes brancos como o coco. Percebi que tens um canino, o direito, que se sobrepõe, e que tua mordida, tua arcada é um tanto torta, WB., e acho que temos problema parecido. Deves ficar roçando a língua ali, eu também. B., que tem em sua sobrancelha uma falha que se assemelha a de sua colega e que quando posta lado a lado, como sempre aparecem, combinam, se parelham. Uma começa normal e falha no seu final, no lado direito; a outra falha no começo do lado esquerdo e segue normal, sem falhas. É como um código morse simétrico, um S.O.S que acaba e termina palindrômico. Sua colega de hoje tem dentes mais bonitos que os teus, me desculpa, mas sei que não ligas. Não percebia isso em sua ex-colega. Seus dentes, os dela, hoje estão velhos, como ela, a senhora B.. Hoje ela está bem, muito bem, obrigado, porém dizem que quando a senhora B. mudou de horário foi porque já tinham dado sua hora, ela e o senhor B..

WB., WB., com seus dentes simétricos, perfeitos como exijam que seja. Seus dentes brancos, impecáveis como o laço de sua gravata, separados tão unidos, tão únicos, seu canino avantajado, sobressaliente a todos os demais, digno e merecedor do senhor B., ímpar entre seus e suas colegas, absoluto em seu horário, tão só que só ele pode ser. WB. que não perde por W.O.; nunca falta, nunca. Mas se falta, não faz falta, porque sabem que um dia ou outro irá voltar.

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Meu moletom

Ele é quentinho e roxo
Grená, bordo
Como um roxo, um machucado
que também é quentinho
E você bota gelo para parar de doer;
Pode estar gelado
Que eu vou ficar quentinho
Com meu moletom roxo
Bordo, grená, vinho – que também
deixa quentinho nessas geladas
noites solitárias sem um amor
que hão por vir (quando?).
Essas foram as palavras
Que me vieram a cabeça
Para falar de meu moletom roxo.
Outras poderiam ter vindo,
Mas não: foram essas.

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